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A Dança das Daturas – Um Ritual Entre a Vida e a Morte

Omar Dimbarre leva o leitor para o sobrenatural e a reflexão sobre a vida em seu conto desta semana. Leia no Éder Luiz Notícias!

Omar Dimbarre

Omar Dimbarre

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Uma brisa forte e refrescante passou varrendo a tarde de sexta-feira, deixando o clima agradável. Era outubro e Carlos, exausto, havia finalizado seu dia de trabalho antecipadamente. Como costumava fazer em momentos de folga, embarcou em seu velho Gol vermelho e partiu para o interior.

A semana havia sido maçante. Assim como os demais dias, meses e anos que vinham se sucedendo, o tempo estava transformando sua vida em uma grande árvore velha que, presa em um ambiente árido, vai secando e definhando pelo clima hostil que a envolve. Carlos, outrora um sonhador que gostava de viver a vida intensamente, desfrutando de todos os seus momentos com euforia contagiante e imerso em devaneios a serem conquistados, havia sucumbido aos anseios estabelecidos pela sociedade. Sua essência acabou sendo atropelada pela tentativa de ser um modelo de felicidade ditado pela conveniência alheia.

A estrada que ligava a bucólica paisagem campestre ao centro da cidade estava abandonada; raramente algum veículo passava por lá. Querendo apaziguar a alma em contato com a natureza, partiu em busca de novas aventuras. Percorreu estradas desconhecidas e, em uma delas, seguiu por um caminho que terminou abruptamente. Parou o carro e desceu.

Encostou-se no capô e, do alto, contemplativo, correu o olhar pela paisagem que se desenhava por entre os morros, tingidos pelo verde da mata exuberante e recortados por um riacho que corria lá embaixo. Ficou nesse estado de imersão, meditando por um bom tempo, até que se deu conta: estava na hora de retornar.

Quando foi girar a chave, o motor emitiu um som afogado e parou. Tentou novamente; nada. Por sete vezes insistiu, até desistir. Carlos, então, viu-se em apuros. A luz do sol já dava seus últimos vestígios  de vida no horizonte, pincelando-o com tons alaranjados e preparando o ambiente para que o breu soturno despencasse sobre toda a região. O aventureiro teria que caminhar quilômetros até chegar à cidade.

Mas precisava começar. Saiu do automóvel e seus primeiros passos iniciaram a jornada. Levou pouco tempo para a noite engolir o dia, envolvendo a terra com um grande véu de penumbra. Um sopro gélido cortou a escuridão, clareada apenas pelos lampejos da lua cheia que, suspensa no céu, espreitava  a noite misteriosa que acontecia lá embaixo, tal qual um gato escondido atrás da moita. Pios fúnebres  de corujas ecoavam pela mata, como se anunciassem que a morte estava a rondar, aguardando a passagem daquele viajante solitário. Ao longe, no topo de um morro, cintilavam clarões de algumas casas.

Aos poucos, arbustos de um verde-escuro quase opaco, cobertos de flores brancas, alvas como asas de garças e alongadas como trombetas de anjos, foram tomando conta dos dois lados da estrada. Conforme Carlos caminhava, a vegetação ficava maior, mais densa, e as flores reluziam ao brilho da lua. Eram daturas — plantas tóxicas associadas a rituais de misticismo, sagradas e perigosas.

O vento tornou-se mais forte. As flores balançavam em uma dança rítmica; ora suas pétalas refletiam a lua, ora eram sugadas pelas trevas, em um jogo de luzes e sombras que prenunciava um acontecimento mágico e tenebroso.

As rajadas de vento assolavam a paisagem, uivando como se recitassem orações em latim. Um clarão tênue, formado por chamas trêmulas de velas que, mesmo varridas pela corrente de ar, se mantinham acesas, surgiu no caminho. Sinalizavam ao errante andarilho que ele não estava sozinho: entidades invisíveis vigiavam seus passos.

Um grito de pavor, enlouquecido e visceral, rasgou o silêncio do vale. Carlos, estático, gelou. Não conseguia identificar a origem daquele clamor, enquanto um arrepio percorreu seu corpo.

Uma mulher de longos cabelos pretos caídos sobre o rosto, trajando um vestido comprido, tingido com a sombra densa que habita nas profundezas da consciência humana, surgiu do outro lado da estrada.

Ela segurava um livro secular, guardião dos Registros Akáshicos, proveniente da biblioteca cósmica, contendo a história de todas as almas. Lentamente, ergueu seu dedo indicador, longo e fino, em direção a Carlos e, com uma voz grave e sinistra, proferiu frases em latim arcaico, condenando-o à execução.

O vale foi, então, invadido por gritos de horror, entrecortados por gemidos, lamentos e sussurros roucos. O ar estava sendo tragado por uma multidão de almas penadas de respiração ofegante e pesada; e falas murmuradas, com palavras quebradas e sem sentido, completavam o cenário de terror.

Um grande cão negro, com dentes afiados como facas recém-amoladas, despontou na estrada. Olhou fixamente para Carlos e rangeu os dentes com a obstinação de um ataque planejado, enquanto um pânico visceral  o envolvia. Misteriosamente surgiu, ao lado do grande animal funesto, um senhor alto e esquelético, com uma túnica preta cobrindo todo o corpo, deixando apenas seu crânio desnudo, à mostra. Segurava em sua mão direita uma foice. O ceifador iniciou sua caminhada, peregrinando lenta e pesadamente em direção ao solitário andante noturno. Seus passos deixavam um rastro espectral   por onde pisava, enquanto seu fiel escudeiro, tal qual um predador implacável, rosnava como se estivesse pronto para abater sua presa.

Enquanto aquela criatura grotesca se aproximava, pronta para colher sua alma e colocar um ponto final em sua história, sua face e seu corpo gelaram, paralisando-o completamente.

Nesse exato momento, morcegos abandonaram sua toca em uma árvore oca e, em um bailado sepulcral, deslizavam em círculos pelos ares. Era um aviso do lado oculto: havia chegado o momento da transformação. Carlos precisava morrer — só assim poderia renascer.

Confuso e asfixiado, caiu de joelhos. Começou a perder os sentidos e a agonizar. Imagens de toda a sua vida se projetaram em sua frente. Como quem assiste a um filme,  reviu sua infância, sua juventude e seus últimos anos. Seus momentos finais surgiram na grande tela, quando estava prestes a dar seu suspiro derradeiro.

Envolto pela magia que se desdobrava no local, um moço trajando uma camiseta estampada, bermuda e de pés descalços surgiu em meio à bruma que havia tomado conta da cena. Não era possível distinguir seu rosto; o estranho foi se aproximando e colocou a mão sobre a sua cabeça. Carlos, então, revisitando um anseio antigo que havia deixado pelo caminho quando começou a se sentir aprisionado e sufocado pela rotina que consumia seus dias, viu-se sentado à beira-mar, contemplando o pôr do sol no horizonte enquanto gaivotas bailavam sobre as ondas.

Munido de um Athame, punhal ritualístico de fio duplo sem corte, utilizado para canalizar energias e abrir caminhos, o estranho estendeu a mão e lhe ofereceu aquele artefato, símbolo do poder de transformação. Quando seus olhares se cruzaram, Carlos se deu conta de que o desconhecido era ele mesmo em sua mocidade.

O moribundo, então, provido de uma força descomunal, aos poucos foi se erguendo com as pernas cambaleantes e o corpo todo a tremer. Em pé, pôs-se firme, olhou fixamente para seus algozes e, pronto para a batalha, caminhou em direção a eles. De caça, tornou-se caçador.

A cada passo dado pelo guerreiro espiritual, um raio de energia rompia de sua arma, rasgando o manto sombrio que cobria o espaço e enfraquecendo a Morte e seus discípulos, que também avançavam para o confronto final. Quando ficaram diante um do outro, Carlos investiu contra o Ceifador, enterrando o punhal em seu peito. Aterrorizadas, as figuras místicas lançaram-se atordoadas para o meio das plantas mágicas. Foram engolidas pelas daturas e sumiram.

Carlos, então, banhado em suor e ainda em transe, colheu várias flores, espalhou-as pelo chão e deitou-se. Com as mãos impregnadas pela seiva viscosa das daturas, lacrimejada ao dilacerar seus  ramos, e com o corpo revestido por seu pólen amarelado, apagou.

Acordou no dia seguinte, quando os raios do sol haviam devorado completamente a escuridão da noite e uma brisa suave corria por todo o vale. Renascido, resultado da alquimia que havia transfigurado sua alma, sentou-se sobre seu tapete de pétalas e, arrebatado por recordações de seus sonhos perdidos e sufocados pelo tempo, esboçou um sorriso no rosto.

O aventureiro colocou seu pé na estrada e seguiu seu caminho. A experiência brutal que havia vivenciado significava agora o recomeço de uma antiga vida.

Omar Dimbarre é produtor cultural, colecionador de cartazes originais de cinema, minerais e fragmentos de meteoritos. É apaixonado por artes — especialmente música e cinema —, fascinado pela natureza e por histórias populares, desenvolvendo projetos que visam recuperá-las.


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